
A história de Lili, o beija-flor.
Até que voa com graça pra quem não vive pra alguém. Eu só a vejo quarta, pois ela tem amores para cada um de seus dias. Ama tanto as papoulas vermelhas que as mata. Eu me vejo muito em seu espírito. Tão sufocante. Tão repleta de solidão. Ela me adivinha fácil. Não traz alegria nos meus dias de silêncio. Tem jeito de mulher forte, difícil de lidar, escolhe a flor mais linda para o dia. Lili é de fibra. Mas como toda mulher, cede aos feitiços do amor. João de Barro prende Lili pelas asas, a pobre tropeça em seus carinhos sem sentir. Quantas vezes errou o caminho da flor e se acabou tímida atrás das pétalas. Minhas papoulas que deveriam contar essas histórias. Eu sou apenas espectador do amor dos outros. Cada pétala deve ter sentido o suspirar do amor que meu doce beija-flor soltava em forma de música. Escrevi na parede “Prenda-a, João, pois doces são as ilusões do amor”, mas ele me olhou surpreso, desinteressado. Lili sofre de amor como quem gosta. Como eu. E mesmo assim voa sempre com vontade nos dias em que o vê, pois o amor deixa as coisas lindas. Eu já chorei por Lili, como quem a ama, mas dela só tenho a presença. Aconchegante fica a vida quando se está com o coração carente e alguém resolve te fazer um cafuné de longe, em sonho, na ilusão. E foi por doer tanto que cortei todas as flores num dia de frio. Dessa vez ela me escreveu “Solte-me, paixão, pois amargos são os corações solitários”. Lili. Nunca pensei que uma semente de papoula jogada por ninguém traria um amor tão intenso e doentio para dentro de casa. Mas que amor não é assim? Semeado por ninguém. Intenso. Separado. Porque amor de verdade é distante. É de vidas diferentes. Lili bem sabe que ele fará as malas e partirá. Logo no ápice do seu amor. Mesmo assim insiste, pois quanto maior a dor que sente, mais bela se torna. João amargou a vida de Lili, que desconta insistentemente em minhas flores, como sempre fazem os corações repletos de desengano e desamor. Sorte do vento que leva embora tanto amor jogado fora. Azar o meu que me escondo atrás da porta. Esperando que volte. Esperando que vá. Esperando que venha. Lili é uma paixão bonita, porque maltrata. Somente eu, papoula velha e sem sabor, pra querer viver o amor dos outros. Mas te preserva, Lili, seu amor é do tipo que enlouquece pássaro são e tira a cor das flores. Que prende bem firme com laço de fita.



